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história | pesquisa

Fernando Corrêa . ARQUEOLOGIA DO FORRÓ
Fernando Corrêa
Cidade onde nasceu: São Paulo
Cidade onde vive: Juazeiro do Norte
Profissão: Pesquisador, professor, músico
Projeto: Arqueologia do Forró
No Forró desde: Julho de 1999
Hábitos Forrozeiros: Uso roupas confortáveis e simples, calça e camiseta ou camisa. Não tenho costume de comer no Forró, bebo cerveja, água e mais umas coisinhas, hahahahaha
“Forró é tanta coisa que nem sei dizer. Mas pra dizer de forma resumida, Forró é festa, é comunhão, é brincadeira, é celebração, é desafio, assim como a vida o é!
Agora um versinho, rs
Me diga quem é que pode
Dizer o que o forró é
Celebração, Comunhão
Brincadeira, festa e fé
E também é desafio
Assim como a vida o é
O Forró me possibilitou a conexão com pessoas maravilhosas, me trouxe viagens, amores, amizades e claro... dissabores! As músicas de sofrência não existem por acaso, rs. O Forró me possibilitou viajar por muitos lugares do Brasil e do mundo sempre tendo um fio conector com pessoas. Conexões essas que seguramente não aconteceriam sem a presença do Forró nas suas mais variadas expressões e matizes.
Existe a sensação ordinária de dançar, festejar e conhecer pessoas (que por si só já é muito especial), mas dentro da minha vivência íntima e extensa com o Forró tem uma outra sensação que não é tão simples de explicar. A grandiosidade da experiência de se conectar com o parceiro de dança e a música, apenas ser. Não há separação, a música, a dança, os corpos, os movimentos, as intenções, tudo apenas é naquele momento e por aquele momento. Não é fácil existirem esses momentos, não é com qualquer pessoa que essa conexão acontece, nem com qualquer banda que está tocando, mas quando acontece, pra mim é onde eu vejo a vida, o sagrado, a natureza e o divino se manifestar.
Conheci o baile de Forró, levado por algumas amigas no Remelexo Pinheiros, mas ao chegar lá percebi que já conhecia o cenário musical/cultural do forró! Aprendi a dançar o Forró que se dançava nas noites paulistanas da década de 90, Contudo hoje, somada a essa base tenho incorporado na minha dança e musicalidade os saberes das tradições populares por onde tenho permeado e mergulhado, Coco, Maracatu Rural, Cavalo Marinho, Boi, Samba Tradicional baiano, Carimbó e outras matrizes. Aprendi de forma espontânea, por observação sem professores formais. Mas posso dizer que nessa observação me inspirei na dança de algumas pessoas conhecidas e desconhecidas, mas na minha memória vem nomes como Buiu, Evandro Paz, Silvia e Cintia Masil.
No meu processo artístico, sigo a mesma linha, tentando entender e assimilar os saberes musicais e poéticos que são ancestrais, sempre presentes nas comunidades tradicionais em seus festejos e fazeres celebrativos e que impregnaram a obra de muitos dos ícones do Forró pé-de-serra, como Gonzaga, Marinês, Jackson, Ary Lobo, Jacinto, Anastácia, Dominguinhos, Sivuca, Abdias e muitos outros artistas de menos expressão, mas de igual importância para o Forró.
Minhas aulas inicialmente seguiram um padrão acadêmico tradicional, contudo ao me aprofundar nas manifestações tradicionais e seus saberes, seus métodos de transmissão de conhecimento e vivências, posso dizer que tento fazer com o processo ensino-aprendizagem em minhas aulas estejam mais conectados com as maneiras ancestrais de conectar corpo e música, som e movimento. Mais do que aprender a dançar, mais do que aprender um léxico corporal, tento estimular os alunos a desenvolverem uma percepção do que a música sugere no corpo e com qual alfabeto corporal vamos nos expressar, de acordo com o estilo de Forró que esteja em pauta.
Tive uma infância comum de um menino urbano. Nascido num bairro central de São Paulo, mas a partir da adolescência, através do contato com a capoeira e depois com outras brincadeiras populares fui me interessando por outras realidades e a partir do momento que pude viajar, desde bem jovem, sempre (de forma inconsciente no início), sempre gostei de estar ao lado das pessoas mais idosas e detentores de saberes populares diversos, Dança, Música, Rezas, Artísticos e de artesania populares.
“Uma história que sempre gosto de lembrar, tem a ver com aquilo que tento realizar no meu trabalho. Se passou em São Paulo, no Canto Madalena, numa noite onde quem conduzia a “tocada” era o Nicolas Krassik, pois o Filpo Ribeiro (o artista anfitrião do evento regular) estava em turnê no Japão, se não me engano. Eu sempre digo que dançar e tocar é a mesma coisa, acredito que não há razão para divisão, essa conexão é intrínseca pois numa festa de Forró os músicos tocam para a dança e os que dançam, dançam o que os músicos estão tocando.
Essa é a maneira que aprendi com os mestres da tradição que encontrei pelo caminho. Mas a maneira eurocêntrica de pensar, quase que nos obriga a
entender e aprender de forma fragmentada. Mas voltando pro angu, Estava eu lá dançando na pista, com uma amiga querida, dança boa danada, mas a partir de um momento dança ficou diferente, começou a fluir muito, de uma maneira conhecida, mas não habitual. Eu, conectado com a música, me movimentava junto à parceira, reagia às nuances da música, mas por horas parecia que quem comandava a música era eu e minha parceira. As nuances, as dinâmicas, todas estavam muito "fáceis", não dava pra errar, não havia esforço, só fluía.
Eu abismado com aquele momento "mágico", me virei para a banda e qual não foi minha surpresa quando vi o Nicolas, olhando pra mim, vidrado, concentrado e conectado com o que eu estava dançando! Quando nosso olhar se encontrou ele fez uma expressão de alegria e comemoração do tipo” É issooooooooooooo, óia nóis aqui junto, olha o que nós estamos fazendo”, eu retribui o mesmo olhar, a mesma expressão, nem acreditando no que estava acontecendo.
Ao terminar a música, celebramos e agradecemos, ele no palco e eu na pista e o Forró seguiu. Eu fiquei meio atordoado, duvidando se foi aquilo mesmo que aconteceu, mas beleza, tinha muito Forró ainda pra dançar e arrochei o nó.
Mas no final do Show, o Nicolas veio falar comigo e vi que não estou sozinho, não
Parecia invenção da minha cabeça, mas ele teve a mesma sensação e veio me dizer que realmente a música que ele tocava e a dança que eu dançava estavam conectadas se influenciando mutuamente e que é muito raro que isso aconteça, mas neste momento que a magia acontece, e não tem livro, artigo, teoria que dê conta de explicar isso.”
A minha história no forró começa com meu aniversário de 18 anos, onde as minhas amigas da capoeira, quando a gente treinava, descobriram que aquele dia era o dia do meu aniversário. Elas queriam comemorar, eu não sou muito afoito à comemoração de aniversário, não gosto tanto, mas ela falaram: “Não, não, 18 anos tem que comemorar.” E me levaram ao Forró.
Cheguei no Forró, maravilha, né? Fiquei muito feliz com aquele ambiente festivo ali, gente para caramba na época, era Trio Sabiá no Remelexo, num sábado. E aí eu fui. Cheguei lá, achei muito bom, foi muito fácil. Tomei umas duas, né? Aí fica mais fácil ainda. Comecei a dançar e achar, dançando tava bom, aí beleza, fui embora para casa. O Forró acabou, eu falei: “Gostei de Forró, vou de novo.”
Só que aí, quando eu fui de novo, não foi a mesma coisa, porque as meninas não estavam querendo dançar comigo, ou dançavam e paravam, ou dançavam e logo largavam, né? Ou dançavam e depois, eu chamava para dançar, não dançavam de novo. Aí eu fiquei assim, né? Falei, “Ué, tá dando alguma coisa errada, no dia do meu aniversário estava tão fácil, hoje tá tão difícil.”
Eu sei que isso aconteceu algumas vezes e eu não fiquei muito feliz, aconteceu mais de uma vez. Aí, eu falei, não, vou aprender a dançar forró. Aí eu comecei a ir para o Remelexo toda quinta-feira e sábado. Quinta-feira era Trio Crispiniano e sábado era Trio Sabia, só que eu ficava de canto olhando e eu ficava olhando as pessoas dançar e ficava na minha cabeça, assim, marcando: direito, esquerda, direita, esquerda, direita, esquerda, direita, esquerda, direita.
Eu fiquei dois meses nisso aí, dois meses, toda quinta e sábado. Aí eu via: abertura, girinho, agora passou a mão direita, mão esquerda; até que uma alma caridosa chegou lá e falou assim para mim: “Poxa, eu vejo você todo dia aqui no Forró, por que é que você não dança com ninguém?” Eu falei: “Eu tô aprendendo.” Ela falou: “Mas você aprende só de olhar, sem dançar?” “É, eu tô tentando aprender.” Ela falou, “Mas será que você não aprendeu ainda?” Eu falei: “Não sei, vamos tentar?” -Vamos.” Aí dancei com essa pessoa caridosa, deu certo, porque aí, depois eu chamei ela de novo e ela quis dançar de novo, então meu termômetro foi esse.
E aí eu comecei a dançar e não parei mais de dançar a noite toda e fui dançando depois aprendi, arrumei uma parceira, eu já dava aula de capoeira em uma academia, arrumei uma aluna minha para praticar, com pouco tempo, a gente tava dando aula de Forró na academia.
Durante muito tempo, eu fiquei dando aulas particulares, né? E frequentando o Forró. Fui fazer faculdade de Educação Física e trabalhava com outras coisas. Em 2016 eu fiz a primeira turnê, fui para França, na verdade, fiquei só na França. Dei aula na França em 2016, vi que tinha um movimento interessante lá, em 2017 eu voltei, fiquei um ano trabalhando lá, e aí eu fui e trabalhei com o Forró, dei aula de dança, dei aula de cultura tradicional, de percussão, danças tradicionais, cavalo marinho e dei uma aula teórica, pois eu havia me acidentado no dia anterior, não ia poder dar uma aula prática, dei uma aula teórica sobre a história do Forró.
E foi a história que originou depois, foi a aula que depois originou uma aula que depois intitulei “O Baião antes de Gonzagão”. Essa aula foi muito bem aceita, depois fui convidado para dar essa aula em outros festivais da Europa. Voltei para o Brasil em 2018 e fui convidado para dar essa aula em alguns lugares, Curitiba, Brasília, Rio Grande do Sul, São Paulo. No ano da pandemia, eu tive vontade de fazer essa aula se estender um pouco mais, porque é muito assunto, né? É uma aula que gera muitas, muitas dúvidas e a gente não tinha tempo de abordar. E aí eu criei o curso “Arqueologia do Forró”, que é um curso online, que que é um curso de bastante sucesso, tenho muito, tem um público que fala muito bem.
A maioria dos meus alunos são professores e profissionais da área do Forró e é isso. E continuo dançando, no momento tô morando no Cariri cearense, aqui na cidade de Juazeiro do Norte. Morei no Crato um tempo, no Pé da Serra do Araripe, agora me mudei para uma cidade um pouquinho maior, Juazeiro do Norte, e continuo aqui, pesquisando o Forró, vivenciando o Forró aqui, pesquisando o Forró e as matrizes tradicionais do Forró. Bem como, também as manifestações mais atuais Forró daqui, né? Que as pessoas aqui tem uma, o cenário do Forró pé-de-serra aqui, ele não é exatamente igual, idealizado, né? Mas, é isso, a minha história é essa aí. Valeu, um abraço!
A Arqueologia do Forró
A marca que eu tenho no Forró, no momento, é um curso online que se chama “Arqueologia do Forró” e eu tive a ideia de fazer esse curso, montar esse curso, durante a pandemia, mas é importante dizer que o embrião desse curso, ele surgiu na Europa.
De que maneira? Quando eu cheguei na Europa para dar aula, lá tem um cenário muito interessante, com vários profissionais de várias partes do Brasil, mas eu percebia que as pessoas, após saberem do meu diferencial, do meu background, que eu tinha uma relação muito forte com a cultura tradicional, com a cultura popular, com as manifestações tradicionais, como o coco, o samba de roda, cavalo marinho, as pessoas começavam a me fazer algumas perguntas, que eu não entendia muito bem o porquê daquelas pessoas me fazerem aquelas perguntas, tanto alunos, quanto professores. Perguntas do tipo: “Mas existe Forró, existe Baião, mas o que é Baião? O que é Forró? E não sei.. eu falava, mas eu não consigo compreender como essas pessoas não compreendem, né? Não consigo entender como essas pessoas não compreendem as diferenças e as nuances, ou dando aula ou tão fazendo aula e não tem ideia do que tá acontecendo.
E aí, as pessoas iam me perguntando e eu ia falando, né? Não, mas como começou isso, como começou aquilo, e aí dentro da minha experiência, dentro da minha vivência, eu ia conversando. Aí chegou um dia, que eu morava na cidade de Nice, ia dar aula no Festival de Nice, depois de, sei lá, mais de seis meses vivendo na Europa, eu já tinha rodado por algumas cidades, alguns países, na noite de abertura, na noite pré-Festival, o Festival se iniciava na sexta, na quinta-feira à noite, a gente foi para festa e quando eu saí da festa, eu caí de bicicleta e quebrei a clavícula. No dia do Festival da cidade que eu morava, da associação que eu trabalhava, fiquei muito triste, mas beleza, fui lá dei, uma aula que eu consegui dar, que era uma aula mais conceitual, prática, mas mais conceitual e aí depois eu falei, não, não dá mais pra eu trabalhar, vou fazer uma aula teórica. E aí eu fiz, bolei uma aula teórica contando, né? Da maneira que eu acredito, de acordo com a minha pesquisa, minha vivência, como funciona, né? Quais são as matrizes e as raízes do Forró e para minha surpresa, foi muito bem aceita, tive mais de 40 alunos na aula, né? Foi muito interessante, vários professores estavam presentes, de várias partes do Brasil. Então foi muito legal, gostei muito.
E, só que era uma coisa que eu tinha que passar batido por muitas coisas, né? Quando a gente falava de canto de trabalho não podia falar muito, não dava tempo, quando a gente falava de outras matrizes do Forró, não dá para falar muito, quando falava de poesia popular, não dava pra falar muito, não fala muito, quando falava de celebrações tradicionais, de festa, fé, todo esse contexto onde o forró estava inserido durante muito tempo e ainda está, não podia me alongar naquilo, né?
E também não podia falar sobre o Forró Universitário, né? Sobre o boom do Forró Universitário e outras coisas, não tinha tempo. E aí, durante a pandemia, eu tive a ideia de fazer um curso, que é o curso “Arqueologia do Forró”, que é por esse trabalho que muitas pessoas no Brasil e fora do Brasil me conhecem, que eu pude esmiuçar mais, né? As raízes do Forró, a maneira como eu enxergo o Forró, a maneira que as minhas vivências no Brasil, mais de 15 anos de estrada aí, correndo o Brasil, influenciaram a minha visão, influenciam a minha visão sobre os saberes populares tradicionais, no qual o Forró está inserido. Então foi nesse momento que eu pude, que, a partir dessas circunstâncias, que esse curso que eu tenho, que ofereço, está... foi gestado.
É isso, a história foi essa, fui de uma adversidade, de um braço quebrado, uma clavícula quebrada e aí uma mudança de estratégia, uma aula teórica, depois voltei para o Brasil. Nessa aula, outras pessoas, de outras associações da Europa, viram a aula, gostaram, me chamaram para outros festivais para dar a mesma aula. Chegando no Brasil, fui convidado para dar essa aula em alguns outros estados. E aí, depois, na pandemia, essa aula se desmembrou em outras aulas, para fazer o curso “Arqueologia do Forró”. E é isso. Muito obrigado pela oportunidade tá aqui falando para vocês.
Cidade onde nasceu: São Paulo
Cidade onde vive: Juazeiro do Norte
Profissão: Pesquisador, professor, músico
Projeto: Arqueologia do Forró
No Forró desde: Julho de 1999
Hábitos Forrozeiros: Uso roupas confortáveis e simples, calça e camiseta ou camisa. Não tenho costume de comer no Forró, bebo cerveja, água e mais umas coisinhas, hahahahaha
“Forró é tanta coisa que nem sei dizer. Mas pra dizer de forma resumida, Forró é festa, é comunhão, é brincadeira, é celebração, é desafio, assim como a vida o é!
Agora um versinho, rs
Me diga quem é que pode
Dizer o que o forró é
Celebração, Comunhão
Brincadeira, festa e fé
E também é desafio
Assim como a vida o é
O Forró me possibilitou a conexão com pessoas maravilhosas, me trouxe viagens, amores, amizades e claro... dissabores! As músicas de sofrência não existem por acaso, rs. O Forró me possibilitou viajar por muitos lugares do Brasil e do mundo sempre tendo um fio conector com pessoas. Conexões essas que seguramente não aconteceriam sem a presença do Forró nas suas mais variadas expressões e matizes.
Existe a sensação ordinária de dançar, festejar e conhecer pessoas (que por si só já é muito especial), mas dentro da minha vivência íntima e extensa com o Forró tem uma outra sensação que não é tão simples de explicar. A grandiosidade da experiência de se conectar com o parceiro de dança e a música, apenas ser. Não há separação, a música, a dança, os corpos, os movimentos, as intenções, tudo apenas é naquele momento e por aquele momento. Não é fácil existirem esses momentos, não é com qualquer pessoa que essa conexão acontece, nem com qualquer banda que está tocando, mas quando acontece, pra mim é onde eu vejo a vida, o sagrado, a natureza e o divino se manifestar.
Conheci o baile de Forró, levado por algumas amigas no Remelexo Pinheiros, mas ao chegar lá percebi que já conhecia o cenário musical/cultural do forró! Aprendi a dançar o Forró que se dançava nas noites paulistanas da década de 90, Contudo hoje, somada a essa base tenho incorporado na minha dança e musicalidade os saberes das tradições populares por onde tenho permeado e mergulhado, Coco, Maracatu Rural, Cavalo Marinho, Boi, Samba Tradicional baiano, Carimbó e outras matrizes. Aprendi de forma espontânea, por observação sem professores formais. Mas posso dizer que nessa observação me inspirei na dança de algumas pessoas conhecidas e desconhecidas, mas na minha memória vem nomes como Buiu, Evandro Paz, Silvia e Cintia Masil.
No meu processo artístico, sigo a mesma linha, tentando entender e assimilar os saberes musicais e poéticos que são ancestrais, sempre presentes nas comunidades tradicionais em seus festejos e fazeres celebrativos e que impregnaram a obra de muitos dos ícones do Forró pé-de-serra, como Gonzaga, Marinês, Jackson, Ary Lobo, Jacinto, Anastácia, Dominguinhos, Sivuca, Abdias e muitos outros artistas de menos expressão, mas de igual importância para o Forró.
Minhas aulas inicialmente seguiram um padrão acadêmico tradicional, contudo ao me aprofundar nas manifestações tradicionais e seus saberes, seus métodos de transmissão de conhecimento e vivências, posso dizer que tento fazer com o processo ensino-aprendizagem em minhas aulas estejam mais conectados com as maneiras ancestrais de conectar corpo e música, som e movimento. Mais do que aprender a dançar, mais do que aprender um léxico corporal, tento estimular os alunos a desenvolverem uma percepção do que a música sugere no corpo e com qual alfabeto corporal vamos nos expressar, de acordo com o estilo de Forró que esteja em pauta.
Tive uma infância comum de um menino urbano. Nascido num bairro central de São Paulo, mas a partir da adolescência, através do contato com a capoeira e depois com outras brincadeiras populares fui me interessando por outras realidades e a partir do momento que pude viajar, desde bem jovem, sempre (de forma inconsciente no início), sempre gostei de estar ao lado das pessoas mais idosas e detentores de saberes populares diversos, Dança, Música, Rezas, Artísticos e de artesania populares.
“Uma história que sempre gosto de lembrar, tem a ver com aquilo que tento realizar no meu trabalho. Se passou em São Paulo, no Canto Madalena, numa noite onde quem conduzia a “tocada” era o Nicolas Krassik, pois o Filpo Ribeiro (o artista anfitrião do evento regular) estava em turnê no Japão, se não me engano. Eu sempre digo que dançar e tocar é a mesma coisa, acredito que não há razão para divisão, essa conexão é intrínseca pois numa festa de Forró os músicos tocam para a dança e os que dançam, dançam o que os músicos estão tocando.
Essa é a maneira que aprendi com os mestres da tradição que encontrei pelo caminho. Mas a maneira eurocêntrica de pensar, quase que nos obriga a
entender e aprender de forma fragmentada. Mas voltando pro angu, Estava eu lá dançando na pista, com uma amiga querida, dança boa danada, mas a partir de um momento dança ficou diferente, começou a fluir muito, de uma maneira conhecida, mas não habitual. Eu, conectado com a música, me movimentava junto à parceira, reagia às nuances da música, mas por horas parecia que quem comandava a música era eu e minha parceira. As nuances, as dinâmicas, todas estavam muito "fáceis", não dava pra errar, não havia esforço, só fluía.
Eu abismado com aquele momento "mágico", me virei para a banda e qual não foi minha surpresa quando vi o Nicolas, olhando pra mim, vidrado, concentrado e conectado com o que eu estava dançando! Quando nosso olhar se encontrou ele fez uma expressão de alegria e comemoração do tipo” É issooooooooooooo, óia nóis aqui junto, olha o que nós estamos fazendo”, eu retribui o mesmo olhar, a mesma expressão, nem acreditando no que estava acontecendo.
Ao terminar a música, celebramos e agradecemos, ele no palco e eu na pista e o Forró seguiu. Eu fiquei meio atordoado, duvidando se foi aquilo mesmo que aconteceu, mas beleza, tinha muito Forró ainda pra dançar e arrochei o nó.
Mas no final do Show, o Nicolas veio falar comigo e vi que não estou sozinho, não
Parecia invenção da minha cabeça, mas ele teve a mesma sensação e veio me dizer que realmente a música que ele tocava e a dança que eu dançava estavam conectadas se influenciando mutuamente e que é muito raro que isso aconteça, mas neste momento que a magia acontece, e não tem livro, artigo, teoria que dê conta de explicar isso.”
A minha história no forró começa com meu aniversário de 18 anos, onde as minhas amigas da capoeira, quando a gente treinava, descobriram que aquele dia era o dia do meu aniversário. Elas queriam comemorar, eu não sou muito afoito à comemoração de aniversário, não gosto tanto, mas ela falaram: “Não, não, 18 anos tem que comemorar.” E me levaram ao Forró.
Cheguei no Forró, maravilha, né? Fiquei muito feliz com aquele ambiente festivo ali, gente para caramba na época, era Trio Sabiá no Remelexo, num sábado. E aí eu fui. Cheguei lá, achei muito bom, foi muito fácil. Tomei umas duas, né? Aí fica mais fácil ainda. Comecei a dançar e achar, dançando tava bom, aí beleza, fui embora para casa. O Forró acabou, eu falei: “Gostei de Forró, vou de novo.”
Só que aí, quando eu fui de novo, não foi a mesma coisa, porque as meninas não estavam querendo dançar comigo, ou dançavam e paravam, ou dançavam e logo largavam, né? Ou dançavam e depois, eu chamava para dançar, não dançavam de novo. Aí eu fiquei assim, né? Falei, “Ué, tá dando alguma coisa errada, no dia do meu aniversário estava tão fácil, hoje tá tão difícil.”
Eu sei que isso aconteceu algumas vezes e eu não fiquei muito feliz, aconteceu mais de uma vez. Aí, eu falei, não, vou aprender a dançar forró. Aí eu comecei a ir para o Remelexo toda quinta-feira e sábado. Quinta-feira era Trio Crispiniano e sábado era Trio Sabia, só que eu ficava de canto olhando e eu ficava olhando as pessoas dançar e ficava na minha cabeça, assim, marcando: direito, esquerda, direita, esquerda, direita, esquerda, direita, esquerda, direita.
Eu fiquei dois meses nisso aí, dois meses, toda quinta e sábado. Aí eu via: abertura, girinho, agora passou a mão direita, mão esquerda; até que uma alma caridosa chegou lá e falou assim para mim: “Poxa, eu vejo você todo dia aqui no Forró, por que é que você não dança com ninguém?” Eu falei: “Eu tô aprendendo.” Ela falou: “Mas você aprende só de olhar, sem dançar?” “É, eu tô tentando aprender.” Ela falou, “Mas será que você não aprendeu ainda?” Eu falei: “Não sei, vamos tentar?” -Vamos.” Aí dancei com essa pessoa caridosa, deu certo, porque aí, depois eu chamei ela de novo e ela quis dançar de novo, então meu termômetro foi esse.
E aí eu comecei a dançar e não parei mais de dançar a noite toda e fui dançando depois aprendi, arrumei uma parceira, eu já dava aula de capoeira em uma academia, arrumei uma aluna minha para praticar, com pouco tempo, a gente tava dando aula de Forró na academia.
Durante muito tempo, eu fiquei dando aulas particulares, né? E frequentando o Forró. Fui fazer faculdade de Educação Física e trabalhava com outras coisas. Em 2016 eu fiz a primeira turnê, fui para França, na verdade, fiquei só na França. Dei aula na França em 2016, vi que tinha um movimento interessante lá, em 2017 eu voltei, fiquei um ano trabalhando lá, e aí eu fui e trabalhei com o Forró, dei aula de dança, dei aula de cultura tradicional, de percussão, danças tradicionais, cavalo marinho e dei uma aula teórica, pois eu havia me acidentado no dia anterior, não ia poder dar uma aula prática, dei uma aula teórica sobre a história do Forró.
E foi a história que originou depois, foi a aula que depois originou uma aula que depois intitulei “O Baião antes de Gonzagão”. Essa aula foi muito bem aceita, depois fui convidado para dar essa aula em outros festivais da Europa. Voltei para o Brasil em 2018 e fui convidado para dar essa aula em alguns lugares, Curitiba, Brasília, Rio Grande do Sul, São Paulo. No ano da pandemia, eu tive vontade de fazer essa aula se estender um pouco mais, porque é muito assunto, né? É uma aula que gera muitas, muitas dúvidas e a gente não tinha tempo de abordar. E aí eu criei o curso “Arqueologia do Forró”, que é um curso online, que que é um curso de bastante sucesso, tenho muito, tem um público que fala muito bem.
A maioria dos meus alunos são professores e profissionais da área do Forró e é isso. E continuo dançando, no momento tô morando no Cariri cearense, aqui na cidade de Juazeiro do Norte. Morei no Crato um tempo, no Pé da Serra do Araripe, agora me mudei para uma cidade um pouquinho maior, Juazeiro do Norte, e continuo aqui, pesquisando o Forró, vivenciando o Forró aqui, pesquisando o Forró e as matrizes tradicionais do Forró. Bem como, também as manifestações mais atuais Forró daqui, né? Que as pessoas aqui tem uma, o cenário do Forró pé-de-serra aqui, ele não é exatamente igual, idealizado, né? Mas, é isso, a minha história é essa aí. Valeu, um abraço!
A Arqueologia do Forró
A marca que eu tenho no Forró, no momento, é um curso online que se chama “Arqueologia do Forró” e eu tive a ideia de fazer esse curso, montar esse curso, durante a pandemia, mas é importante dizer que o embrião desse curso, ele surgiu na Europa.
De que maneira? Quando eu cheguei na Europa para dar aula, lá tem um cenário muito interessante, com vários profissionais de várias partes do Brasil, mas eu percebia que as pessoas, após saberem do meu diferencial, do meu background, que eu tinha uma relação muito forte com a cultura tradicional, com a cultura popular, com as manifestações tradicionais, como o coco, o samba de roda, cavalo marinho, as pessoas começavam a me fazer algumas perguntas, que eu não entendia muito bem o porquê daquelas pessoas me fazerem aquelas perguntas, tanto alunos, quanto professores. Perguntas do tipo: “Mas existe Forró, existe Baião, mas o que é Baião? O que é Forró? E não sei.. eu falava, mas eu não consigo compreender como essas pessoas não compreendem, né? Não consigo entender como essas pessoas não compreendem as diferenças e as nuances, ou dando aula ou tão fazendo aula e não tem ideia do que tá acontecendo.
E aí, as pessoas iam me perguntando e eu ia falando, né? Não, mas como começou isso, como começou aquilo, e aí dentro da minha experiência, dentro da minha vivência, eu ia conversando. Aí chegou um dia, que eu morava na cidade de Nice, ia dar aula no Festival de Nice, depois de, sei lá, mais de seis meses vivendo na Europa, eu já tinha rodado por algumas cidades, alguns países, na noite de abertura, na noite pré-Festival, o Festival se iniciava na sexta, na quinta-feira à noite, a gente foi para festa e quando eu saí da festa, eu caí de bicicleta e quebrei a clavícula. No dia do Festival da cidade que eu morava, da associação que eu trabalhava, fiquei muito triste, mas beleza, fui lá dei, uma aula que eu consegui dar, que era uma aula mais conceitual, prática, mas mais conceitual e aí depois eu falei, não, não dá mais pra eu trabalhar, vou fazer uma aula teórica. E aí eu fiz, bolei uma aula teórica contando, né? Da maneira que eu acredito, de acordo com a minha pesquisa, minha vivência, como funciona, né? Quais são as matrizes e as raízes do Forró e para minha surpresa, foi muito bem aceita, tive mais de 40 alunos na aula, né? Foi muito interessante, vários professores estavam presentes, de várias partes do Brasil. Então foi muito legal, gostei muito.
E, só que era uma coisa que eu tinha que passar batido por muitas coisas, né? Quando a gente falava de canto de trabalho não podia falar muito, não dava tempo, quando a gente falava de outras matrizes do Forró, não dá para falar muito, quando falava de poesia popular, não dava pra falar muito, não fala muito, quando falava de celebrações tradicionais, de festa, fé, todo esse contexto onde o forró estava inserido durante muito tempo e ainda está, não podia me alongar naquilo, né?
E também não podia falar sobre o Forró Universitário, né? Sobre o boom do Forró Universitário e outras coisas, não tinha tempo. E aí, durante a pandemia, eu tive a ideia de fazer um curso, que é o curso “Arqueologia do Forró”, que é por esse trabalho que muitas pessoas no Brasil e fora do Brasil me conhecem, que eu pude esmiuçar mais, né? As raízes do Forró, a maneira como eu enxergo o Forró, a maneira que as minhas vivências no Brasil, mais de 15 anos de estrada aí, correndo o Brasil, influenciaram a minha visão, influenciam a minha visão sobre os saberes populares tradicionais, no qual o Forró está inserido. Então foi nesse momento que eu pude, que, a partir dessas circunstâncias, que esse curso que eu tenho, que ofereço, está... foi gestado.
É isso, a história foi essa, fui de uma adversidade, de um braço quebrado, uma clavícula quebrada e aí uma mudança de estratégia, uma aula teórica, depois voltei para o Brasil. Nessa aula, outras pessoas, de outras associações da Europa, viram a aula, gostaram, me chamaram para outros festivais para dar a mesma aula. Chegando no Brasil, fui convidado para dar essa aula em alguns outros estados. E aí, depois, na pandemia, essa aula se desmembrou em outras aulas, para fazer o curso “Arqueologia do Forró”. E é isso. Muito obrigado pela oportunidade tá aqui falando para vocês.

Alfredo Belllo . DJ TUDO . SELO MUNDO MELHOR
Alfredo Bello | DJ Tudo | Selo Mundo Melhor
Empresa: Selo Mundo Melhor
Profissão: Dj, Músico, Produtor, Pesquisador
Cidade onde nasceu: Juiz de Fora/MG
Cidade onde vive: São Paulo/SP
Data de Nascimento: 05/01/1976
Frequenta o Forró desde: criança
Ligação com o nordeste: irmãs e mães moraram e.moram pelo Nordeste, além de eu viajar muito para lá
Como conheceu o Forró? Criança em bailes no subúrbio de Brasília com nordestinos
“Forró é uma belíssima invenção coletiva cultural que tem o nordeste como ponto de partida mas que se desenvolve no sudeste e em todo Brasil. Tem a dimensão do coletivo e do social como agregador, isso com herança da cultura popular que ele vem e faz parte”
Autor do projeto Selo Mundo Melhor, site onde disponibiliza músicas tradicionais do mundo todo, Alfredo Bello é músico, DJ e pesquisador. Viaja pelo mundo tocando, discotecando e pesquisando música popular. Foi contemplado em 2022 pelo Prêmio Anastácia, vencendo com a Palma de prata da Câmara Municipal de São Paulo pelo 1o lugar como produtor cultural de São Paulo e 2o lugar como pesquisador.
Também conhecido como DJ Tudo, é colecionador de LPS, fez dois anos e meio de faculdade de Sociologia, largou e foi fazer Faculdade de Música em Brasília, pois era apaixonado por contrabaixo e pela música popular brasileira. Durante sua adolescência teve algumas bandas, uma das mais famosas foi “Os Cachorros das Cachorras”.
Recentemente Alfredo Bello fez a pesquisa, gravação, produção e edição do documentário: Castanheiro do Forró, projeto contemplado pela Primeira Edição da Lei de Fomento ao Forró de SP em 2020.
História de Alfredo Bello
“Minha História com Forró começa criança porque fui criado no Sul de Minas e depois fui para o Sul de Brasília e, com 5, 6 anos eu já dançava em festas assim como outros nordestinos migrados. E dancei minha vida inteira praticamente, o Forró sempre esteve presente na minha vida. Depois eu me tornei músico no final dos anos 80 e início dos 90 e cheguei a tocar algumas vezes com artistas de Forró em Brasília e nesta época comecei minha coleção de discos, coleção em vinil de Forró e música brasileira.
E fui descobrindo a importância do Forró na história da cultura brasileira, por tudo que ele fez, a dimensão que tem, a festa do Forró, e pensar em Luiz Gonzaga, o baile, este lugar social, s. Eu fui aprendendo e entendendo esta dimensão do Forró na música e cultura brasileira, através dos discos, também discotecando, pesquisando.
Eu já discotecava Forró fora do circuito, junto com DJs lá de fora, da Europa, a gente troca conhecimento, Saiu uma coletânea do Camarão lá fora; por exemplo, a gente faz coletâneas, A gente troca se apresenta, com pessoal de outros lugares do mundo, eu também pesquiso música popular de outros lugares do mundo.
Até que eu realizei recentemente um documentário sobre Castanheiro do Forró, 2021 Castanheiro Gomes da Cunha, isso resume bem minha ligação com o Forró.
O Castanheiro chegou em 59 em São Paulo, como muitos migrantes vieram para construir a cidade, trabalhar em São Paulo e acabou sendo um dos pioneiros em São Paulo a trazer o Forró e da cultura, ele é uma pessoa extremamente importante e muito pouco conhecida, pois a gente trata muito mal nossa história e quem veio antes. Isso é um problema da cultura brasileira em geral.
E o Castanheiro atuou desde 1960 como músico de rua, depois trabalhou com Luiz Gonzaga, Pedro Sertanejo, Zé do Baião, outro grande pioneiro, muito pouco falado, hoje mora num asilo e tá com 93 anos, e fazia Forró aqui desde 1949.
E o Castanheiro depois trabalhou na gravadora Cantagalo, foi um dos músicos que mais gravou discos nos anos 60, 70 e 80 em São Paulo. Trabalhou com Pedro Sertanejo ajudando a administrar a casa de Forró, depois trabalhou como radialista e depois foi se afastando. Ele merece ser respeitado e conhecido, sem ele, o Forró não estaria acontecendo hoje.”
Empresa: Selo Mundo Melhor
Profissão: Dj, Músico, Produtor, Pesquisador
Cidade onde nasceu: Juiz de Fora/MG
Cidade onde vive: São Paulo/SP
Data de Nascimento: 05/01/1976
Frequenta o Forró desde: criança
Ligação com o nordeste: irmãs e mães moraram e.moram pelo Nordeste, além de eu viajar muito para lá
Como conheceu o Forró? Criança em bailes no subúrbio de Brasília com nordestinos
“Forró é uma belíssima invenção coletiva cultural que tem o nordeste como ponto de partida mas que se desenvolve no sudeste e em todo Brasil. Tem a dimensão do coletivo e do social como agregador, isso com herança da cultura popular que ele vem e faz parte”
Autor do projeto Selo Mundo Melhor, site onde disponibiliza músicas tradicionais do mundo todo, Alfredo Bello é músico, DJ e pesquisador. Viaja pelo mundo tocando, discotecando e pesquisando música popular. Foi contemplado em 2022 pelo Prêmio Anastácia, vencendo com a Palma de prata da Câmara Municipal de São Paulo pelo 1o lugar como produtor cultural de São Paulo e 2o lugar como pesquisador.
Também conhecido como DJ Tudo, é colecionador de LPS, fez dois anos e meio de faculdade de Sociologia, largou e foi fazer Faculdade de Música em Brasília, pois era apaixonado por contrabaixo e pela música popular brasileira. Durante sua adolescência teve algumas bandas, uma das mais famosas foi “Os Cachorros das Cachorras”.
Recentemente Alfredo Bello fez a pesquisa, gravação, produção e edição do documentário: Castanheiro do Forró, projeto contemplado pela Primeira Edição da Lei de Fomento ao Forró de SP em 2020.
História de Alfredo Bello
“Minha História com Forró começa criança porque fui criado no Sul de Minas e depois fui para o Sul de Brasília e, com 5, 6 anos eu já dançava em festas assim como outros nordestinos migrados. E dancei minha vida inteira praticamente, o Forró sempre esteve presente na minha vida. Depois eu me tornei músico no final dos anos 80 e início dos 90 e cheguei a tocar algumas vezes com artistas de Forró em Brasília e nesta época comecei minha coleção de discos, coleção em vinil de Forró e música brasileira.
E fui descobrindo a importância do Forró na história da cultura brasileira, por tudo que ele fez, a dimensão que tem, a festa do Forró, e pensar em Luiz Gonzaga, o baile, este lugar social, s. Eu fui aprendendo e entendendo esta dimensão do Forró na música e cultura brasileira, através dos discos, também discotecando, pesquisando.
Eu já discotecava Forró fora do circuito, junto com DJs lá de fora, da Europa, a gente troca conhecimento, Saiu uma coletânea do Camarão lá fora; por exemplo, a gente faz coletâneas, A gente troca se apresenta, com pessoal de outros lugares do mundo, eu também pesquiso música popular de outros lugares do mundo.
Até que eu realizei recentemente um documentário sobre Castanheiro do Forró, 2021 Castanheiro Gomes da Cunha, isso resume bem minha ligação com o Forró.
O Castanheiro chegou em 59 em São Paulo, como muitos migrantes vieram para construir a cidade, trabalhar em São Paulo e acabou sendo um dos pioneiros em São Paulo a trazer o Forró e da cultura, ele é uma pessoa extremamente importante e muito pouco conhecida, pois a gente trata muito mal nossa história e quem veio antes. Isso é um problema da cultura brasileira em geral.
E o Castanheiro atuou desde 1960 como músico de rua, depois trabalhou com Luiz Gonzaga, Pedro Sertanejo, Zé do Baião, outro grande pioneiro, muito pouco falado, hoje mora num asilo e tá com 93 anos, e fazia Forró aqui desde 1949.
E o Castanheiro depois trabalhou na gravadora Cantagalo, foi um dos músicos que mais gravou discos nos anos 60, 70 e 80 em São Paulo. Trabalhou com Pedro Sertanejo ajudando a administrar a casa de Forró, depois trabalhou como radialista e depois foi se afastando. Ele merece ser respeitado e conhecido, sem ele, o Forró não estaria acontecendo hoje.”

DJ Ivan Dias . Forró em Vinil . O QUE É O FORRÓ . FESTIVAL ROOTSTOCK
DJ Ivan Dias
Cidade Natal: São Paulo
Cidade em que Mora: São Paulo
Data de Nascimento:1974
Desde quando atua/frequenta no Forró: 1996/1997
Profissão: DJ, pesquisador e produtor de Forró
Hábitos Forrozeiros: Vai na festa com roupa do dia a dia, bebe água
entrevista realizada por Evandro Paz
texto escrito por iris De franco
DJ Ivan Dias Cidade Natal: São Paulo Cidade em que Mora: São Paulo Data de Nascimento:1974 Desde quando frequenta/atua no Forró: 1996/1997 Profissão: DJ, pesquisador e produtor de Forró Hábitos Forrozeiros: Vai na festa com roupa do dia a dia, bebe água entrevista realizada por Evandro Paz texto escrito por Iris de franco Ivan Dias é um grande DJ e pesquisador de Forró, recebeu o Troféu Gonzagão em reconhecimento ao Festival Rootstock dentro do cenário nacional. É é uma das figuras que mais contribuiu para o fomento, a difusão e a salvaguarda do Forró no mundo. Idealizador e um dos criadores do maior acervo de discos de Forró do mundo: Forró em Vinil http://www.forroemvinil.com/ e do Festival Rootstock, https://www.facebook.com/festivalrootstock, o pioneiro e o atualmente o maior do segmento do Forró Urbano, o qual recebeu cerca de 3000 pessoas por dia nas suas edições mais recentes. O Rootstock realizou diversas entrevistas e documentários importantes com as/os artistas forrozeiras/os como: Genival Lacerda, Flávio José, Anastácia, Mestrinho, Benício Guimarães, Zenilton, dentre tantas e tantos outros. Ivan fala do surgimento da ideia desta linda festa que atualmente dura, em média, 3 dias e acontece anualmente: “Éramos um grupo de amigos papeando, falávamos de um contraponto ao Forró Universitário (pop), chamávamos de Forró Roots (tradicional)... e claro influenciado pelo Woodstock” . Assim surgiu o Rootstock no início dos anos 2000, hoje um dos principais pontos de encontro dos forrozeiros do mundo, no princípio, um encontro de amigos em um sítio, que se transformou num festival profissional de Forró. Migrando do interior do estado de São Paulo, fincou sede em BH, cidade que hoje exibe uma cena de Forró bastante plural e intensa com relação a estilos e escolas de dança, DJs e festas. Ivan Dias foi pioneiro também em criar e concretizar a maior plataforma discográfica de Forró do mundo, o Forró em Vinil http://www.forroemvinil.com/ que disponibiliza gratuitamente álbuns novos e antigos para download. Este site se iniciou em 2007, numa época em que não existia o streaming, nem as nuvens e a moda era CD original ou mesmo pirata, num tempo que era muito difícil baixar música pela internet. Ivan fala: “Nós DJs tínhamos uma pesquisa, todos colecionavamos discos, tanto CDs quanto Vinis, (como o próprio Ivan que tem mais de 5000 vinis) e resolvemos compartilhar com as pessoas para além do baile, da festa, resolvemos dividir o que a gente tinha, sem cobrar. Eu e o DJ Tick decidimos usar as ferramentas da época da internet, para postar um disco por dia, e criar um banco de dados, disponibilizando o conteúdo online. Criamos o blog em janeiro de 2007.” O Forró em Vinil fez uma grande e importante pesquisa e trabalho de garimpo, tornando-se um dos maiores arquivos de História do Forró Música que hoje recebe colaboradores do Brasil inteiro. “Eu tive que peneirar, comprar discos e ver se tinha algo interessante de Forró, hoje os DJs têm uma pesquisa grande já pronta”, fala Ivan. Grande pesquisador de Forró, Ivan Dias, começou como DJ na Cooperativa Brasil, em 1997, casa de Forró em Campinas. Depois foi tocar no KVA e Projeto Equilíbrio, em São Paulo, em outros estados do Brasil e em diferentes países da Europa. Lançou inúmeras modas e resgatou artistas esquecidos através de sua discotecagem, pesquisa, produção de shows e gravação de álbuns de músicos e musicistas abandonadas/os pelo tempo, pela moda ou pela mídia. Ivan Dias produziu discos cerca de 25 CD , 9 DVDs e 3 vinis: 'Parafina' do Edson Duarte, um EP de 10 polegadas, de 2019, realizando um sonho do Seu Edson de ter um vinil e ser tocado nas pickups dos bailes de Forró. Depois, fez o re-press em formato vinil do primeiro CD do Trio Macaíba, um álbum de 2013 pelo qual se apaixonou, também prensado durante a pandemia. E o mais recente vinil é um disco inédito de Luizinho Calixto, um disco instrumental de Forró onde o elemento principal é a "Sanfona de 8 baixos" com músicas de autoria de Anastácia e Dominguinhos da década de 70, que fizeram parte da infância de Luizinho, irmão caçula dos Calixto. Ivan diz: “Enquanto Zé Calixto estava gravando, o Luizinho era criança, estava ouvindo, depois disso ele se tornou apenas o maior tocador de 8 baixos da história. O sonho do cara era gravar aquelas músicas da infância dele e eu tive o privilégio de interagir na produção do disco. A gente conseguiu fazer um álbum instrumental com participação de Mestrinho, Nicolas Krassik, Claudio Rabeca, Marcos Farias, Luciano Magno, Moisés Alves, entre outros ícones, um monte de gente legal. Ficou um disco lindo, tenho a honra de ter participado. O álbum ganhou o nome de 'Domingos' em homenagem a Dominguinhos.” Ivan Dias também foi premiado no nordeste com o Troféu Gonzagão em 2018 pelo seu trabalho com o Festival Rootstock, e recentemente foi contemplado pela segunda edição da Lei de Fomento ao Forró para a cidade de São Paulo, para a prensagem, compartilhamento e difusão do livro: O que é o Forró? http://www.forroemvinil.com/livros/livro-o-que-e-o-forro-2022-ivan-dias-esandrinho-dupan/ que hoje tem 100 páginas e está disponível online e nas bibliotecas públicas de SP. Este livro é um marco na História do Forró, pois faz a ligação entre os primórdios, a formação do movimento forrozeiro com a atualidade, dando um panorama mundial e abordando o Forró como um todo, enquanto festa, enquanto dança, enquanto música, o Forró enquanto estilo de vida. Ivan diz que dançar, entender as pistas de dança e um pouco de música, ajuda muito na carreira de DJ. Falou em entrevista para Forró Urbano: um álbum que conta histórias: “Eu adoslescente tinha essa ligação corporal que vem da capoeira, o batuque da capoeira tem tudo a ver com a musicalidade do Forró, que era um negócio viciante também (como o Forró). Capoeirista também tem esse lance fitness (fazendo a comparação com o forrozeiro), este lance de ficar completamente dentro daquele ambiente. Eu, moleque, era do esporte, da capoeira, do skate, gostava de andar de bicicleta, cheguei a praticar Triathlon, fiz faculdade de Educação Física, fui técnico de natação e durante a faculdade comecei a me enrolar com Forró. Eu tinha alguma influência de dança da lambada, Kaoma, eu tava no colegial. Mas era uma coisa mais coreografada, não era um negócio de condução como a gente tem hoje no Forró e era uma música que não me seduz, era também uma moda, algo sem raízes para mim.” Para além da corporalidade, Ivan conta então de suas raízes musicais: “Meus pais, eram muito musicais, embora não fossem musicistas, ouvi muita música durante a infância. Música clássica, por influência do meu pai e muita MPB por parte da minha mãe. Na pré-adolescência estudei Clarinete no Conservatório e a primeira música que aprendi a tocar foi ”Asa Branca“. Geneticamente, não tenho descendência nordestina, mas quando ouvi o Forró, parecia que já éramos íntimos há tempos. Depois disso pratiquei e aprendi rudimentos de Violão, Sanfona (acordeon), Canto e vários instrumentos de percussão, tudo de forma prática. Participei do Trio Boca Mole em meados dos anos 2000 e acompanhei alguns sanfoneiros tocando triângulo e cantando.” Trecho da sua entrevista concedida na revista Ritmo e Melodia https://www.ritmomelodia.mus.br
Ivan Dias em entrevista conduzida pelo professor Evandro Paz para Forró Urbano: um álbum que conta histórias: “Eu comecei toda essa onda do Forró sendo DJ e dando aula de dança. Um apanhado de toda minha carreira foi ter escrito o livro (O que é O Forró?). Acho que ele é um marco que resume um pouco do que eu aprendi nesse meio tempo.” “E comecei a frequentar o Forró mesmo, eu tava na faculdade, tinha por volta de uns 20 anos. Guaraná de rolha, né? rs. Deve ter sido por volta de 1996. Em meados da década de 1990 começaram a ter umas festas de Forró Universitário aqui em São Paulo, e digo que São Paulo também como estado, não só como cidade. E aí no final de 1996 eu fui para Itaúnas e fiquei um mês e meio lá.” Evandro: “Como você foi parar em Itaúnas?” “Foi uma história engraçada. Embora eu tivesse frequentado algumas festas de Forró aqui, aquilo era algo que não me chamava tanto atenção. E aí no final do ano a minha irmã me ligou e falou, Olha, nós estamos indo para o sul da Bahia. E vou eu e uma amiga nossa, que tal? No impulso, peguei o dinheiro entreguei para ela e falei: - 'ó, compra uma passagem para mim?' Na época não tinha internet, e também não tinha dinheiro para ir de avião, a gente tinha que ir na rodoviária comprar passagem. Eu fui com a minha irmã e com essa nossa amiga eu fiquei um tempão lá. Depois descobri que não era Bahia, era norte do Espírito Santo, aí a gente vai aprender a Geografia do local. Fui sem saber o que tinha lá. Cheguei e me deparei com o ambiente. E voltei convertido” Evandro: “Na religião? Perfeito! Explicação melhor que essa não tem? Aí aconteceu o batismo, não é?” “Então o sanfoneiro é o sacerdote, o nosso guia, rs. Tudo isso, cara! Nessa última temporada em Itaúnas, eu refleti sobre todo esse tempo de uma maneira interessante de se enxergar. Andando pela Vila, vi um monte de gente legal, encontrei milhares de amigos que eu não encontrava fazia tempo. E tropecei em forrozeiro, em músico, em sanfoneiro, em sanfoneirinho mirim, que tá nascendo agora, sabe, tipo?! E ali, cara, eu percebi que todo mundo, o que nós tínhamos em comum? Era o Forró. Todo mundo que estava ali em julho tava ali por causa do Forró. Não porque era temporada de férias, o cara não foi passar uma semana na praia. Quem tava ali é porque gosta de Forró.” “E ali pela primeira vez, depois de muito tempo, eu me senti normal. Eu passei minha vida toda sendo alienígena nos círculos de amizades de fora do Forró, eu era um alien. - O que você faz? - Eu trabalho com Forró. - Como você trabalha com Forró? Você vai no Forró se divertir? - Não, eu trabalho com Forró. E eu passei isso minha vida inteira, explicando para as pessoas que eu me dedicava ao Forró. - Qual é o seu problema, menino? Vai trabalhar! Toma rumo na sua vida, você não vai ser moleque para sempre! Aquela lição de moral que a vó falava quando o cara não escolhia a carreira de advocacia, medicina ou engenharia. Eu ouvi isso a vida inteira. Agora nesta temporada (em Itaúnas) eu caí na real: lá eu me senti normal, dentro do Rootstock eu me sinto normal, porque todo mundo ali gosta da mesma coisa (Forró) e isto não tem preço.” “Bom, eu não sei dizer o que me botou pra dentro do Forró, mas eu voltei de Itaúnas pela primeira vez cantando música de Forró, na semana que cheguei eu já queria ir para o Forró de novo. Acho que o Forró me pegou com as mesmas armas, qualidades que capta qualquer pessoa que está disposta a interagir, que sente o ritmo e que gosta de música brasileira. Desde que eu entrei para o Forró, a maior parte das músicas que eu ouço diariamente é Forró.” Como surgiu o nome Roots… O Forró já recebeu várias denominações no decorrer dos séculos e muitas de suas vertentes são variações e vem surgindo através dos tempos, visto que é uma cultura viva e que se atualiza conforme a época e o espaço que se realiza. Forró Raiz, Forró Tradicional, Forró Universitário, Piseiro, Forró Pé-de-Serra, Forró Eletrônico, Forró Estilizado, Forró Fieira, Forró Urbano, Forró Roots… Dentre todas as atuais modas no Forró, o Roots é um nome que intriga e veio para ficar, criando um novo ramo de estilos de dança, uma predileção por determinados tipos de músicas e maneiras de fazer a festa. Esta entrevista com Ivan Dias dá pistas de que, sem nem imaginar onde este festival iria dar, foi o Rootstock e Itaúnas que inspiraram este movimento. “É interessante ver que as mesmas nomenclaturas foram sendo usadas no decorrer dos séculos, para significar coisas diferentes. A festa Forró tocava diferentes ritmos e o povo dançava tudo, mas era chamada mais de Samba do que de Forró. Até que na década de 1950 o ritmo Samba, do jeito que a gente conhece hoje, se apropriou do nome para uma festa Samba onde só se tocasse o ritmo Samba. Ai sim a nomenclatura Forró passou a ser predominantemente usada para a festa. Foi só na década de 1960 que Jackson formatou um ritmo e batizou com o nome de Forró.” “O nome Forró já foi usado várias vezes, o nome Samba também. Samba Enredo, Samba de Partido Alto, Samba de Breque, Samba de Coco, entre outros... E porquê surgiram estas sub-denominações como Forró Eletrônico ou Forró Universitário, Forró Raiz, Forró Pé-de-serra, Forró Tradicional, etc.? Porque surgiram variações, aquele que tava antes às vezes sentiu a necessidade de se autocaracterizar como o Forró Tradicional (Pé-de-Serra), por exemplo: - O que tá saindo aí já não sou mais eu. Esses ai são meus filhos e netos.” “A nomenclatura Forró Pé-de-Serra é muito curiosa, ela não era utilizada até o final dos anos 1990, quando surgiu o movimento do Forró Universitário. Até o final da década de 1980, o Forró vinha evoluindo musicalmente até que surgiram as Bandas de Forró, que viriam a ser categorizadas como Forró Eletrônico. As Bandas se apropriaram do nome Forró, que até então era usado genericamente. Quando surgiu o Forró Universitário as gravadoras precisavam de um carimbo que dissesse, esse 'novo' Forró é diferente do Forró Eletrônico e também diferente daquele antigo lá (Pé-de-Serra) ... Que era estigmatizado como 'coisa de velho'. A indústria, a moda, a mídia precisam destes apelos, destas inovações.” “Em 1997, a Sony Music havia comprado os acervos de gravadoras antigas que tinham a maioria dos nossos Forrós. O diretor artístico, Oséas Lopes falou: - Vou fazer uma coletânea com os melhores destes arquivos e batizou com nome de Forró Pé-de-Serra. Para categorizar era aquele 'forrozinho antigo'. E a partir daí que se usa essa nomenclatura. Tem muita gente que acha que se chama Pé-de-serra desde os primórdios...” Evandro: “- O que contam é justamente isso, né? Acham que é pé da Serra do Araripe, do Luiz Gonzaga” Ivan: “- Mas não é. Certamente a música “No Meu Pé-de-Serra” inspirou, o título daquela coletânea. É algo super recente, as nomenclaturas vão se reciclando, que nem vocês da dança que inventaram um monte de nomenclaturas pra cada estilo de dança. Daí eu estou no Forró e uma menina, que tem a idade da minha filha, me pergunta: - Que estilo você dança? (risadas e palavrões) … Eu danço Forró... (ou pelo menos achava que dançava Forró) Tipo o básico: dois pra lá e dois pra cá. Tô brincando… mas o lance das nomenclaturas impreterivelmente vai mudando com o passar dos tempos.” “Quando preciso usar uma nomenclatura para definir, prefiro Forró Tradicional, Raiz pode abrir discussão sobre o que são as raízes do Forró. Pé-de-Serra eu acabei de contar a história. E eu não me classifico em lugar nenhum. Comecei antes do Forró Universitário e pude ver muitas fases do Forró. Não tenho mais a paixão de querer mudar o mundo, mas estou fazendo minha parte. O Piseiro e o Forró Eletrônico vão continuar a acontecer, apesar de não ser a minha praia, a gente tem que saber coexistir com os netos e bisnetos do Forró.” “O nome Rootstock, era um grupo de umas 8 pessoas, a gente brincava fazendo um contraponto ao Forró Universitário, mais pop e a gente chamava o Forró Tradicional de 'Roots', e o nome do festival veio em uma alusão ao Woodstock, as primeiras festas foram em sítios, fora da cidade. O primeiro Rootstock aconteceu logo após o ápice do Forró Universitário, hoje eu aceito críticas em função do nome ser em inglês, mas não sei como fazer para mudar.” Evandro: “Você acha que você tem responsabilidade por hoje as pessoas chamarem o jeito de dançar e até um lifestyle de Roots que talvez tenha vindo do Rootstock?” Ivan: “Cara, é possível, é provável que sim. Eu acho que o Festival Rootstock, assim como Itaúnas também, teve uma importância grande na mistura dos estilos de dança e forneceu uma plataforma de troca entre os dançarinos. Tornou-se um dos pontos de encontro de dançarinos que vinham de influências diferentes. Então acho que ajudou a batizar esse estilo lindo aí que a turma chamou de Roots. Antes não tinha esses floreios que o pessoal faz com os pés, na época a gente usava a nomenclatura por causa da música e depois de uns 10 anos, um dos estilos de dança ganhou este nome.” “Creio que sou muito mais próximo do Forró Urbano do que o que seria o Forró Raiz, porque quando eu falo 'Raiz' eu penso muito antes do trio tradicional. Antes era o Conjunto regional (até meados do século XX), o formato trio, que se tornou tradicional, já é uma evolução disso. A evolução é inexorável, tanto na música quanto na dança. Pensando na massificação da dança, a Salsa é a dança de casal que tem mais frequentadores no mundo, eu vejo o Forró como algo que vai superar a Salsa em número de usuários. A maior parte do mundo não entende espanhol, assim como não entende português. Mas o 'dois pra lá e dois pra cá', não precisa nem amarrar o elástico no joelho, kkkk (referindo-se à técnica de Evandro Paz usada nas aulas de Forró dança), na primeira aula, você ensina o básico pra aquele cara de quadril duro. Agora aquela requebradinha da Salsa, vixe, o cara vai demorar um ano e não vai aprender, o cara vai ter que ir no psicólogo para soltar o quadril e não vai aprender.” “A música pode estar presente na sua vida o dia inteiro, independente de estar no baile, você que é professor tem a dança presente no dia-a-dia. Quem é convertido no Forró respira Forró, às vezes o cara faz exercício de dança em casa. Essa molecada nova aí, estuda e aprende, fica vendo vídeos do professor ensinando as manobras. Isso é muito legal, a molecada tá estudando. Eu admiro demais, sou fã de todos vocês que ensinam Forró. Tem gente que fala que o legal do Forró é ensinar de pai para filho, orgânico. É uma visão purista e romântica, mas, com muita convicção, não concordo! Vocês professores de dança, das aulas, têm jogado o Forró para cima em quantidade de novos dançarinos no mundo inteiro, então e se eu tiver que apostar em alguma coisa, eu aposto todas as fichas em aulas de dança, na captação de alunos, pois é isso que vai preencher os bailes no futuro. Sem a dança e os professores de dança, o Forró seria mais cachaçado, muitos amigos antes eram Forró Fitness e viraram Forró cachaçado. Mas quem dança é diferente.” Ivan foi o primeiro produtor a colocar aulas de Forró dentro de um festival no Brasil, em 2013 no Festival Rootstock, ele completa: “E a multiplicação se dará através do Forró Urbano de professores ensinando Forró. Através disso que a gente tá vivendo na Europa, uma parada organizada, as associações fazendo os bailes, daqui a pouco vai ter os empresários de Forró organizando as paradas. A gente começou organizando uma festa diferente entre amigos e com o tempo o negócio foi crescendo e a gente consegue fazer uma festa gigantesca e auto suficiente, como o Festival Rootstock Brasil.” Histórias de Rootstock… “Até 2007 a gente fez o Festival Rootstock só com as feras que viviam no Sudeste. Em 2008, trouxemos o Edson Duarte. E em 2009, decidimos trazer Joci Batista. Ele era um coroa muito legal que tava parado lá no Recife desde a época do vinil. A gente achou o telefone dele, ligou na casa dele, ele atendeu... convidamos e o ele topou vir. E a filha dele ficou apreensiva: - Mas vocês vão buscar meu pai no aeroporto? - Claro! Era uma atração surpresa, ninguém sabia que ele viria. Eu tinha prometido para a filha dele ficar de olho no Seu Joci, então fui lá com ele dar uma volta na festa. Seu Joci andava devagarinho, a gente foi trocando ideia, eu mostrando a molecada para ele, a molecada dançando na beira da piscina. Ele: - Nossa, que bonito! A gente tava no camarim conversando e chegou Benício Guimarães, eles era grandes amigos, mas não se viam, não se encontravam e acho que eles não se falavam há uns trinta e tantos anos. Para ambos o encontro foi uma surpresa total. Ficou um silêncio por alguns segundos, eles se olharam, pensaram um pouco, se reconheceram (eles estavam pelo menos 30 anos mais velhos do que da última vez que haviam se encontrado), continuaram mudos, sorriram, fizeram uns movimentos coreografados (que devia ser alguma dança particular da época), correram devagarinho e se abraçaram. Pode parecer bobo, mas foi a coisa mais linda do mundo. Uma grande amizade não se acaba com o tempo e nem com a distância.
Cidade Natal: São Paulo
Cidade em que Mora: São Paulo
Data de Nascimento:1974
Desde quando atua/frequenta no Forró: 1996/1997
Profissão: DJ, pesquisador e produtor de Forró
Hábitos Forrozeiros: Vai na festa com roupa do dia a dia, bebe água
entrevista realizada por Evandro Paz
texto escrito por iris De franco
DJ Ivan Dias Cidade Natal: São Paulo Cidade em que Mora: São Paulo Data de Nascimento:1974 Desde quando frequenta/atua no Forró: 1996/1997 Profissão: DJ, pesquisador e produtor de Forró Hábitos Forrozeiros: Vai na festa com roupa do dia a dia, bebe água entrevista realizada por Evandro Paz texto escrito por Iris de franco Ivan Dias é um grande DJ e pesquisador de Forró, recebeu o Troféu Gonzagão em reconhecimento ao Festival Rootstock dentro do cenário nacional. É é uma das figuras que mais contribuiu para o fomento, a difusão e a salvaguarda do Forró no mundo. Idealizador e um dos criadores do maior acervo de discos de Forró do mundo: Forró em Vinil http://www.forroemvinil.com/ e do Festival Rootstock, https://www.facebook.com/festivalrootstock, o pioneiro e o atualmente o maior do segmento do Forró Urbano, o qual recebeu cerca de 3000 pessoas por dia nas suas edições mais recentes. O Rootstock realizou diversas entrevistas e documentários importantes com as/os artistas forrozeiras/os como: Genival Lacerda, Flávio José, Anastácia, Mestrinho, Benício Guimarães, Zenilton, dentre tantas e tantos outros. Ivan fala do surgimento da ideia desta linda festa que atualmente dura, em média, 3 dias e acontece anualmente: “Éramos um grupo de amigos papeando, falávamos de um contraponto ao Forró Universitário (pop), chamávamos de Forró Roots (tradicional)... e claro influenciado pelo Woodstock” . Assim surgiu o Rootstock no início dos anos 2000, hoje um dos principais pontos de encontro dos forrozeiros do mundo, no princípio, um encontro de amigos em um sítio, que se transformou num festival profissional de Forró. Migrando do interior do estado de São Paulo, fincou sede em BH, cidade que hoje exibe uma cena de Forró bastante plural e intensa com relação a estilos e escolas de dança, DJs e festas. Ivan Dias foi pioneiro também em criar e concretizar a maior plataforma discográfica de Forró do mundo, o Forró em Vinil http://www.forroemvinil.com/ que disponibiliza gratuitamente álbuns novos e antigos para download. Este site se iniciou em 2007, numa época em que não existia o streaming, nem as nuvens e a moda era CD original ou mesmo pirata, num tempo que era muito difícil baixar música pela internet. Ivan fala: “Nós DJs tínhamos uma pesquisa, todos colecionavamos discos, tanto CDs quanto Vinis, (como o próprio Ivan que tem mais de 5000 vinis) e resolvemos compartilhar com as pessoas para além do baile, da festa, resolvemos dividir o que a gente tinha, sem cobrar. Eu e o DJ Tick decidimos usar as ferramentas da época da internet, para postar um disco por dia, e criar um banco de dados, disponibilizando o conteúdo online. Criamos o blog em janeiro de 2007.” O Forró em Vinil fez uma grande e importante pesquisa e trabalho de garimpo, tornando-se um dos maiores arquivos de História do Forró Música que hoje recebe colaboradores do Brasil inteiro. “Eu tive que peneirar, comprar discos e ver se tinha algo interessante de Forró, hoje os DJs têm uma pesquisa grande já pronta”, fala Ivan. Grande pesquisador de Forró, Ivan Dias, começou como DJ na Cooperativa Brasil, em 1997, casa de Forró em Campinas. Depois foi tocar no KVA e Projeto Equilíbrio, em São Paulo, em outros estados do Brasil e em diferentes países da Europa. Lançou inúmeras modas e resgatou artistas esquecidos através de sua discotecagem, pesquisa, produção de shows e gravação de álbuns de músicos e musicistas abandonadas/os pelo tempo, pela moda ou pela mídia. Ivan Dias produziu discos cerca de 25 CD , 9 DVDs e 3 vinis: 'Parafina' do Edson Duarte, um EP de 10 polegadas, de 2019, realizando um sonho do Seu Edson de ter um vinil e ser tocado nas pickups dos bailes de Forró. Depois, fez o re-press em formato vinil do primeiro CD do Trio Macaíba, um álbum de 2013 pelo qual se apaixonou, também prensado durante a pandemia. E o mais recente vinil é um disco inédito de Luizinho Calixto, um disco instrumental de Forró onde o elemento principal é a "Sanfona de 8 baixos" com músicas de autoria de Anastácia e Dominguinhos da década de 70, que fizeram parte da infância de Luizinho, irmão caçula dos Calixto. Ivan diz: “Enquanto Zé Calixto estava gravando, o Luizinho era criança, estava ouvindo, depois disso ele se tornou apenas o maior tocador de 8 baixos da história. O sonho do cara era gravar aquelas músicas da infância dele e eu tive o privilégio de interagir na produção do disco. A gente conseguiu fazer um álbum instrumental com participação de Mestrinho, Nicolas Krassik, Claudio Rabeca, Marcos Farias, Luciano Magno, Moisés Alves, entre outros ícones, um monte de gente legal. Ficou um disco lindo, tenho a honra de ter participado. O álbum ganhou o nome de 'Domingos' em homenagem a Dominguinhos.” Ivan Dias também foi premiado no nordeste com o Troféu Gonzagão em 2018 pelo seu trabalho com o Festival Rootstock, e recentemente foi contemplado pela segunda edição da Lei de Fomento ao Forró para a cidade de São Paulo, para a prensagem, compartilhamento e difusão do livro: O que é o Forró? http://www.forroemvinil.com/livros/livro-o-que-e-o-forro-2022-ivan-dias-esandrinho-dupan/ que hoje tem 100 páginas e está disponível online e nas bibliotecas públicas de SP. Este livro é um marco na História do Forró, pois faz a ligação entre os primórdios, a formação do movimento forrozeiro com a atualidade, dando um panorama mundial e abordando o Forró como um todo, enquanto festa, enquanto dança, enquanto música, o Forró enquanto estilo de vida. Ivan diz que dançar, entender as pistas de dança e um pouco de música, ajuda muito na carreira de DJ. Falou em entrevista para Forró Urbano: um álbum que conta histórias: “Eu adoslescente tinha essa ligação corporal que vem da capoeira, o batuque da capoeira tem tudo a ver com a musicalidade do Forró, que era um negócio viciante também (como o Forró). Capoeirista também tem esse lance fitness (fazendo a comparação com o forrozeiro), este lance de ficar completamente dentro daquele ambiente. Eu, moleque, era do esporte, da capoeira, do skate, gostava de andar de bicicleta, cheguei a praticar Triathlon, fiz faculdade de Educação Física, fui técnico de natação e durante a faculdade comecei a me enrolar com Forró. Eu tinha alguma influência de dança da lambada, Kaoma, eu tava no colegial. Mas era uma coisa mais coreografada, não era um negócio de condução como a gente tem hoje no Forró e era uma música que não me seduz, era também uma moda, algo sem raízes para mim.” Para além da corporalidade, Ivan conta então de suas raízes musicais: “Meus pais, eram muito musicais, embora não fossem musicistas, ouvi muita música durante a infância. Música clássica, por influência do meu pai e muita MPB por parte da minha mãe. Na pré-adolescência estudei Clarinete no Conservatório e a primeira música que aprendi a tocar foi ”Asa Branca“. Geneticamente, não tenho descendência nordestina, mas quando ouvi o Forró, parecia que já éramos íntimos há tempos. Depois disso pratiquei e aprendi rudimentos de Violão, Sanfona (acordeon), Canto e vários instrumentos de percussão, tudo de forma prática. Participei do Trio Boca Mole em meados dos anos 2000 e acompanhei alguns sanfoneiros tocando triângulo e cantando.” Trecho da sua entrevista concedida na revista Ritmo e Melodia https://www.ritmomelodia.mus.br
Ivan Dias em entrevista conduzida pelo professor Evandro Paz para Forró Urbano: um álbum que conta histórias: “Eu comecei toda essa onda do Forró sendo DJ e dando aula de dança. Um apanhado de toda minha carreira foi ter escrito o livro (O que é O Forró?). Acho que ele é um marco que resume um pouco do que eu aprendi nesse meio tempo.” “E comecei a frequentar o Forró mesmo, eu tava na faculdade, tinha por volta de uns 20 anos. Guaraná de rolha, né? rs. Deve ter sido por volta de 1996. Em meados da década de 1990 começaram a ter umas festas de Forró Universitário aqui em São Paulo, e digo que São Paulo também como estado, não só como cidade. E aí no final de 1996 eu fui para Itaúnas e fiquei um mês e meio lá.” Evandro: “Como você foi parar em Itaúnas?” “Foi uma história engraçada. Embora eu tivesse frequentado algumas festas de Forró aqui, aquilo era algo que não me chamava tanto atenção. E aí no final do ano a minha irmã me ligou e falou, Olha, nós estamos indo para o sul da Bahia. E vou eu e uma amiga nossa, que tal? No impulso, peguei o dinheiro entreguei para ela e falei: - 'ó, compra uma passagem para mim?' Na época não tinha internet, e também não tinha dinheiro para ir de avião, a gente tinha que ir na rodoviária comprar passagem. Eu fui com a minha irmã e com essa nossa amiga eu fiquei um tempão lá. Depois descobri que não era Bahia, era norte do Espírito Santo, aí a gente vai aprender a Geografia do local. Fui sem saber o que tinha lá. Cheguei e me deparei com o ambiente. E voltei convertido” Evandro: “Na religião? Perfeito! Explicação melhor que essa não tem? Aí aconteceu o batismo, não é?” “Então o sanfoneiro é o sacerdote, o nosso guia, rs. Tudo isso, cara! Nessa última temporada em Itaúnas, eu refleti sobre todo esse tempo de uma maneira interessante de se enxergar. Andando pela Vila, vi um monte de gente legal, encontrei milhares de amigos que eu não encontrava fazia tempo. E tropecei em forrozeiro, em músico, em sanfoneiro, em sanfoneirinho mirim, que tá nascendo agora, sabe, tipo?! E ali, cara, eu percebi que todo mundo, o que nós tínhamos em comum? Era o Forró. Todo mundo que estava ali em julho tava ali por causa do Forró. Não porque era temporada de férias, o cara não foi passar uma semana na praia. Quem tava ali é porque gosta de Forró.” “E ali pela primeira vez, depois de muito tempo, eu me senti normal. Eu passei minha vida toda sendo alienígena nos círculos de amizades de fora do Forró, eu era um alien. - O que você faz? - Eu trabalho com Forró. - Como você trabalha com Forró? Você vai no Forró se divertir? - Não, eu trabalho com Forró. E eu passei isso minha vida inteira, explicando para as pessoas que eu me dedicava ao Forró. - Qual é o seu problema, menino? Vai trabalhar! Toma rumo na sua vida, você não vai ser moleque para sempre! Aquela lição de moral que a vó falava quando o cara não escolhia a carreira de advocacia, medicina ou engenharia. Eu ouvi isso a vida inteira. Agora nesta temporada (em Itaúnas) eu caí na real: lá eu me senti normal, dentro do Rootstock eu me sinto normal, porque todo mundo ali gosta da mesma coisa (Forró) e isto não tem preço.” “Bom, eu não sei dizer o que me botou pra dentro do Forró, mas eu voltei de Itaúnas pela primeira vez cantando música de Forró, na semana que cheguei eu já queria ir para o Forró de novo. Acho que o Forró me pegou com as mesmas armas, qualidades que capta qualquer pessoa que está disposta a interagir, que sente o ritmo e que gosta de música brasileira. Desde que eu entrei para o Forró, a maior parte das músicas que eu ouço diariamente é Forró.” Como surgiu o nome Roots… O Forró já recebeu várias denominações no decorrer dos séculos e muitas de suas vertentes são variações e vem surgindo através dos tempos, visto que é uma cultura viva e que se atualiza conforme a época e o espaço que se realiza. Forró Raiz, Forró Tradicional, Forró Universitário, Piseiro, Forró Pé-de-Serra, Forró Eletrônico, Forró Estilizado, Forró Fieira, Forró Urbano, Forró Roots… Dentre todas as atuais modas no Forró, o Roots é um nome que intriga e veio para ficar, criando um novo ramo de estilos de dança, uma predileção por determinados tipos de músicas e maneiras de fazer a festa. Esta entrevista com Ivan Dias dá pistas de que, sem nem imaginar onde este festival iria dar, foi o Rootstock e Itaúnas que inspiraram este movimento. “É interessante ver que as mesmas nomenclaturas foram sendo usadas no decorrer dos séculos, para significar coisas diferentes. A festa Forró tocava diferentes ritmos e o povo dançava tudo, mas era chamada mais de Samba do que de Forró. Até que na década de 1950 o ritmo Samba, do jeito que a gente conhece hoje, se apropriou do nome para uma festa Samba onde só se tocasse o ritmo Samba. Ai sim a nomenclatura Forró passou a ser predominantemente usada para a festa. Foi só na década de 1960 que Jackson formatou um ritmo e batizou com o nome de Forró.” “O nome Forró já foi usado várias vezes, o nome Samba também. Samba Enredo, Samba de Partido Alto, Samba de Breque, Samba de Coco, entre outros... E porquê surgiram estas sub-denominações como Forró Eletrônico ou Forró Universitário, Forró Raiz, Forró Pé-de-serra, Forró Tradicional, etc.? Porque surgiram variações, aquele que tava antes às vezes sentiu a necessidade de se autocaracterizar como o Forró Tradicional (Pé-de-Serra), por exemplo: - O que tá saindo aí já não sou mais eu. Esses ai são meus filhos e netos.” “A nomenclatura Forró Pé-de-Serra é muito curiosa, ela não era utilizada até o final dos anos 1990, quando surgiu o movimento do Forró Universitário. Até o final da década de 1980, o Forró vinha evoluindo musicalmente até que surgiram as Bandas de Forró, que viriam a ser categorizadas como Forró Eletrônico. As Bandas se apropriaram do nome Forró, que até então era usado genericamente. Quando surgiu o Forró Universitário as gravadoras precisavam de um carimbo que dissesse, esse 'novo' Forró é diferente do Forró Eletrônico e também diferente daquele antigo lá (Pé-de-Serra) ... Que era estigmatizado como 'coisa de velho'. A indústria, a moda, a mídia precisam destes apelos, destas inovações.” “Em 1997, a Sony Music havia comprado os acervos de gravadoras antigas que tinham a maioria dos nossos Forrós. O diretor artístico, Oséas Lopes falou: - Vou fazer uma coletânea com os melhores destes arquivos e batizou com nome de Forró Pé-de-Serra. Para categorizar era aquele 'forrozinho antigo'. E a partir daí que se usa essa nomenclatura. Tem muita gente que acha que se chama Pé-de-serra desde os primórdios...” Evandro: “- O que contam é justamente isso, né? Acham que é pé da Serra do Araripe, do Luiz Gonzaga” Ivan: “- Mas não é. Certamente a música “No Meu Pé-de-Serra” inspirou, o título daquela coletânea. É algo super recente, as nomenclaturas vão se reciclando, que nem vocês da dança que inventaram um monte de nomenclaturas pra cada estilo de dança. Daí eu estou no Forró e uma menina, que tem a idade da minha filha, me pergunta: - Que estilo você dança? (risadas e palavrões) … Eu danço Forró... (ou pelo menos achava que dançava Forró) Tipo o básico: dois pra lá e dois pra cá. Tô brincando… mas o lance das nomenclaturas impreterivelmente vai mudando com o passar dos tempos.” “Quando preciso usar uma nomenclatura para definir, prefiro Forró Tradicional, Raiz pode abrir discussão sobre o que são as raízes do Forró. Pé-de-Serra eu acabei de contar a história. E eu não me classifico em lugar nenhum. Comecei antes do Forró Universitário e pude ver muitas fases do Forró. Não tenho mais a paixão de querer mudar o mundo, mas estou fazendo minha parte. O Piseiro e o Forró Eletrônico vão continuar a acontecer, apesar de não ser a minha praia, a gente tem que saber coexistir com os netos e bisnetos do Forró.” “O nome Rootstock, era um grupo de umas 8 pessoas, a gente brincava fazendo um contraponto ao Forró Universitário, mais pop e a gente chamava o Forró Tradicional de 'Roots', e o nome do festival veio em uma alusão ao Woodstock, as primeiras festas foram em sítios, fora da cidade. O primeiro Rootstock aconteceu logo após o ápice do Forró Universitário, hoje eu aceito críticas em função do nome ser em inglês, mas não sei como fazer para mudar.” Evandro: “Você acha que você tem responsabilidade por hoje as pessoas chamarem o jeito de dançar e até um lifestyle de Roots que talvez tenha vindo do Rootstock?” Ivan: “Cara, é possível, é provável que sim. Eu acho que o Festival Rootstock, assim como Itaúnas também, teve uma importância grande na mistura dos estilos de dança e forneceu uma plataforma de troca entre os dançarinos. Tornou-se um dos pontos de encontro de dançarinos que vinham de influências diferentes. Então acho que ajudou a batizar esse estilo lindo aí que a turma chamou de Roots. Antes não tinha esses floreios que o pessoal faz com os pés, na época a gente usava a nomenclatura por causa da música e depois de uns 10 anos, um dos estilos de dança ganhou este nome.” “Creio que sou muito mais próximo do Forró Urbano do que o que seria o Forró Raiz, porque quando eu falo 'Raiz' eu penso muito antes do trio tradicional. Antes era o Conjunto regional (até meados do século XX), o formato trio, que se tornou tradicional, já é uma evolução disso. A evolução é inexorável, tanto na música quanto na dança. Pensando na massificação da dança, a Salsa é a dança de casal que tem mais frequentadores no mundo, eu vejo o Forró como algo que vai superar a Salsa em número de usuários. A maior parte do mundo não entende espanhol, assim como não entende português. Mas o 'dois pra lá e dois pra cá', não precisa nem amarrar o elástico no joelho, kkkk (referindo-se à técnica de Evandro Paz usada nas aulas de Forró dança), na primeira aula, você ensina o básico pra aquele cara de quadril duro. Agora aquela requebradinha da Salsa, vixe, o cara vai demorar um ano e não vai aprender, o cara vai ter que ir no psicólogo para soltar o quadril e não vai aprender.” “A música pode estar presente na sua vida o dia inteiro, independente de estar no baile, você que é professor tem a dança presente no dia-a-dia. Quem é convertido no Forró respira Forró, às vezes o cara faz exercício de dança em casa. Essa molecada nova aí, estuda e aprende, fica vendo vídeos do professor ensinando as manobras. Isso é muito legal, a molecada tá estudando. Eu admiro demais, sou fã de todos vocês que ensinam Forró. Tem gente que fala que o legal do Forró é ensinar de pai para filho, orgânico. É uma visão purista e romântica, mas, com muita convicção, não concordo! Vocês professores de dança, das aulas, têm jogado o Forró para cima em quantidade de novos dançarinos no mundo inteiro, então e se eu tiver que apostar em alguma coisa, eu aposto todas as fichas em aulas de dança, na captação de alunos, pois é isso que vai preencher os bailes no futuro. Sem a dança e os professores de dança, o Forró seria mais cachaçado, muitos amigos antes eram Forró Fitness e viraram Forró cachaçado. Mas quem dança é diferente.” Ivan foi o primeiro produtor a colocar aulas de Forró dentro de um festival no Brasil, em 2013 no Festival Rootstock, ele completa: “E a multiplicação se dará através do Forró Urbano de professores ensinando Forró. Através disso que a gente tá vivendo na Europa, uma parada organizada, as associações fazendo os bailes, daqui a pouco vai ter os empresários de Forró organizando as paradas. A gente começou organizando uma festa diferente entre amigos e com o tempo o negócio foi crescendo e a gente consegue fazer uma festa gigantesca e auto suficiente, como o Festival Rootstock Brasil.” Histórias de Rootstock… “Até 2007 a gente fez o Festival Rootstock só com as feras que viviam no Sudeste. Em 2008, trouxemos o Edson Duarte. E em 2009, decidimos trazer Joci Batista. Ele era um coroa muito legal que tava parado lá no Recife desde a época do vinil. A gente achou o telefone dele, ligou na casa dele, ele atendeu... convidamos e o ele topou vir. E a filha dele ficou apreensiva: - Mas vocês vão buscar meu pai no aeroporto? - Claro! Era uma atração surpresa, ninguém sabia que ele viria. Eu tinha prometido para a filha dele ficar de olho no Seu Joci, então fui lá com ele dar uma volta na festa. Seu Joci andava devagarinho, a gente foi trocando ideia, eu mostrando a molecada para ele, a molecada dançando na beira da piscina. Ele: - Nossa, que bonito! A gente tava no camarim conversando e chegou Benício Guimarães, eles era grandes amigos, mas não se viam, não se encontravam e acho que eles não se falavam há uns trinta e tantos anos. Para ambos o encontro foi uma surpresa total. Ficou um silêncio por alguns segundos, eles se olharam, pensaram um pouco, se reconheceram (eles estavam pelo menos 30 anos mais velhos do que da última vez que haviam se encontrado), continuaram mudos, sorriram, fizeram uns movimentos coreografados (que devia ser alguma dança particular da época), correram devagarinho e se abraçaram. Pode parecer bobo, mas foi a coisa mais linda do mundo. Uma grande amizade não se acaba com o tempo e nem com a distância.
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